Inovação educacional e mobilidade.

23/10/2010 13:38

Por que inovar na educação? Como foi a incorporação dos computadores nas escolas? Quais as possibilidades que as tecnologias móveis trazem para a aprendizagem? Artigos refletem sobre essas questões e traz exemplos de experiências com o uso de laptops em escolas.

 

 

Textos e Artigos

Em tempos de nativos digitais: a inovação educacional

Paloma Epprecht e Machado & Renata Mandelbaum*

 


Por que inovar na educação?



A geração de "nativos digitais" convive harmonicamente com as tecnologias, como os alunos da E. E. Profª Paulina Rosa, em Hortolândia (SP), escola participante do Projeto Aula Fundação Telefônica 
 

Nossa sociedade está em constante mutação. Nesse caso, se a educação não acompanhar o ritmo, ficará fora de sintonia com a sociedade e sua qualidade será considerada aquém do desejável. Logo, não é admissível que, em uma sociedade em constante mudança, a educação permaneça imutável.

A questão é quão radicais, ou inovadoras, devem ser as mudanças a serem introduzidas em nossa educação.

“Mudança Educacional” e “Inovação Educacional” são expressões que estão em moda. Nicholas Negroponte, em
seminário realizado em 2004, defendeu a tese de que o grau de inovação, ou a radicalidade, nas mudanças que decidimos promover na educação é inversamente proporcional à qualidade que atribuímos ao sistema escolar. Se consideramos o sistema escolar excelente, não nos arriscaremos a introduzir grandes inovações ou mudanças radicais nele. Mas se o considerarmos ruim, admitiremos um grau muito maior de inovação nas mudanças que consideramos necessárias ou aceitáveis.

Isso significa que países como a Finlândia, em que o sistema escolar é percebido como de excelente qualidade, dificilmente serão os mais inovadores na área da educação. As maiores inovações, segundo Negroponte, deverão vir de países, como o Brasil, em que a qualidade do sistema escolar é considerada muito aquém do desejável.

Há razoável consenso entre os pensadores, hoje em dia, de que, embora a tecnologia, por si só, não vá conseguir introduzir as mudanças necessárias no sistema escolar, essas mudanças não acontecerão sem a tecnologia. Assim a tecnologia é condição necessária, mas não suficiente, das mudanças que o sistema escolar está a exigir – lá fora e aqui no Brasil.

Diante disso, a necessidade de introduzir mudanças inovadoras no sistema escolar a partir dos novos recursos tecnológicos aparece com força cada vez maior. Essas mudanças visariam a inserir os atores do meio educativo (alunos, professores, gestores e comunidade) na Sociedade da Informação e do Conhecimento – ou, inversamente, trazer a Sociedade da Informação e do Conhecimento para dentro dos ambientes de aprendizagem vinculados à escola.

Sempre dependemos das tecnologias, desde a época da invenção da roda. Não obstante, as tecnologias – em especial as de informação e comunicação – vêm assumindo um papel cada vez mais importante em nosso viver diário, em nosso trabalho, em nosso lazer, e, naturalmente, em nossa aprendizagem. Além disso, essas mesmas tecnologias vêm evoluindo a um ritmo sem precedentes!


Das aulas de informática aos ambientes de aprendizagem


Estudantes recebem formação no laboratório de informática  
 

No Brasil, as TIC começaram a surgir dentro das escolas no início da década de 80. No entanto, foi a partir da década de 90, após a abertura do mercado de importação, que os microcomputadores se popularizaram e começaram a realmente ocupar espaço dentro das escolas. Nessa época, o modelo que vigorava era o de laboratórios de informática. A chamada "aula de informática" entrou na grade curricular e obrigou professores e alunos a utilizar aqueles recursos ao menos uma vez por semana. Sem saber ao certo como utilizá-los, os laboratórios ficaram fadados a basicamente três fins:

1. Se tornaram espaços de "aula de informática", onde os alunos, com o auxílio de monitores de informática, aprendiam a manejar sistemas operacionais, editores de texto, planilhas eletrônicas, softwares de apresentação e editores de imagem; 


2.
 Se tornaram "salas de jogos", onde normalmente os chamados "softwares educacionais" predominavam, quando não, os joguinhos de entretenimento;

3. Ou, simplesmente, os laboratórios ficavam fechados, empoeirando, tendo seu parque de máquinas sucateado.


Nesse terceiro caso, não era raro os laboratórios serem usados como instrumentos de punição, onde, por "mal comportamento", os alunos ficavam sem direito de acesso a eles ou, quando não se tentava mascarar a realidade, o professor assumia que não sabia utilizar seus recursos e se recusava a utilizar aquele espaço com seus alunos. De qualquer forma os alunos eram sempre punidos.

Nos dois primeiros casos as atividades desenvolvidas nos laboratórios não tinham qualquer relação com o currículo escolar. No primeiro, a escola, enquanto espaço privilegiado de aprendizagem, desperdiçava seu tempo e seus recursos a serviço da informática (em vez de a informática disponibilizar seus recursos a serviço da educação). No segundo caso, mesmo os "jogos pedagógicos", que normalmente nem são tão interessantes para os alunos quanto os jogos de entretenimento, tinham um fim em si mesmos, e não contribuiam para o projeto pedagógico da escola. Desse modo não era raro ouvir os professores se queixarem, com razão, de que tinham de "parar suas aulas" para ir para o laboratório.

Foram raras as experiências em que a tecnologia foi integrada ao projeto pedagógico da escola e, mesmo assim, elas encontraram resistência por parte de alguns professores.


O que mudou desde então?


Estudantes da E. E. Miguel Vicente Cury, de Campinas (SP), têm a tecnologia como uma aliada no processo de aprendizagem. A escola participa do Aula Fundação Telefônica

 
Muito se tem avançado em relação ao uso pedagógico crítico da tecnologia, mas uma das principais mudanças observada é que hoje os alunos já nasceram em tempos de computadores, celulares, televisão digital e, como se não bastasse, de Internet. Diferentes de nós, "Imigrantes Digitais", eles são os legítimos "Nativos Digitais". (Prensky, 2001)

Os alunos de hoje dificilmente recusam a utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) na aprendizagem. Para eles, as TIC não representam uma barreira à aprendizagem, pois são instrumentos que eles conhecem desde sempre, que apreciam e que dominam com naturalidade. Por outro lado, os docentes, em sua maioria, ainda são da mesma geração da década de 90, que não conviveram com as TIC desde pequenos e aprenderam a aprender e a ensinar com outros tipos de recursos. Os professores, então, têm de se adaptar ao mundo das tecnologias e muitas vezes, têm dificuldade em "tirar os pés totalmente do passado", como um imigrante.

Eduardo Chaves em seu artigo "Filosofia da Educação: Um Encontro Possível entre o Professor e a Tecnologia", escrito em 2000 (há dez anos!), propôs que o maior desafio para o uso pedagógico da tecnologia "não é o custo do equipamento, não é a inexistência de software adequado e não é a dificuldade técnica de capacitar o professor no manejo dessa tecnologia", mas sim a falta de consenso sobre o conceito de educação e, consequentemente, sobre o papel da escola e deles próprios, os professores, dentro da escola. Assim, dificilmente eles estarão em acordo em relação ao uso que deve ser feito do computador nesse ambiente. Vale ressaltar que nessa época, em 2000, o uso da Internet ainda era muito restrito. A Web 2.0 ainda não havia sequer dado sinal de vida.

Nesse mesmo artigo, Chaves menciona outro artigo seu publicado em 1983 (há mais de 20 anos!) em que dizia que “fundamentalmente, a controvérsia maior ocorre entre os que defendem a utilização do computador basicamente como um instrumento de ensino e os que defendem a utilização do computador basicamente como uma ferramenta de aprendizagem. Pode parecer que a questão não é tão fundamental assim e que tudo não passaria de uma questão de ênfase. Contudo, há aspectos importantes por detrás destas colocações”.

A concepção de educação que enfoca o ensino, está fundamentada na visão Durkheimniana de que a educação é um processo de transmissão de conhecimentos de uma geração a outra, preservando a tradição cultural de um grupo e reproduzindo as estruturas sociais. Essa visão foi duramente criticada pelos escolanovistas e, no Brasil, encontrou possivelmente em Paulo Freire o seu maior oponente. Nessa perspectiva, a tecnologia tem uma utilidade pedagógica um tanto quanto limitada. Como ferramenta de ensino, ela é bastante utilizada como instrumento de acesso à informação, ao conhecimento historicamente produzido, e só.

Do outro lado, encontramos a concepção de educação que enfoca a aprendizagem como principal elemento. Nessa concepção, o professor deixa de ser o "transmissor", e passa a ser o facilitador, mediador da aprendizagem. Conforme sugere Freire, a aprendizagem não se dá em processos individuais, mas na interação com o outro, com o mundo. Nesse contexto a tecnologia adquire outra dimensão. Uma ferramenta que possibilite não apenas a interação entre aluno - professor, inclusive em outros ambientes além da sala de aula, mas também entre aluno - aluno e aluno - mundo simultaneamente, é bastante bem-vinda. Nessa perspectiva a tecnologia é essencialmente uma ferramenta de aprendizagem.

 

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